sexta-feira, 13 de outubro de 2017

A Pitonisa do Cambuci

A PITONISA DO CAMBUCI

por Bruno Cirillo

Cristina Judar assume a voz de quatro personagens, entre eles um genial Serafim, no seu primeiro romance, Oito do Sete, que narra encontros, desencontros e escolhas amorosas, indo de São Paulo a Roma com uma bagagem cheia de referências peculiares

Se os escritores escrevem porque precisam sobreviver - e não por motivos divinos, o que é discutível - Cristina Judar não brinca em serviço. Autora de dois livros, com diversas colaborações na imprensa e no ramo das HQs, ela é uma verdadeira profissional. Metáforas e comparações como " terremotos são o orgasmo do planeta" e "o intestino é um baixo coração" mistificam Oito do Sete, seu primeiro romance, lançado neste ano pela editora Reformatório. No livro, Cristina pinta um quadro onírico com detalhes cinematográficos, musicais, das artes plásticas, sem que isso o torne pedante, pois o que ela faz é colocar a sua erudição (bagagem cultural adquirida nos anos 1980 e 1990) a serviço da narrativa.
Oito do Sete é livro para quem gosta de literatura, como certos diretores fazem filmes para cinéfilos. Mas também é um livro pra todos. Se há demasiada abstração no início, que descreve o nascimento, infância e adolescência da Magda, ela e sua amante, Glória, vão se revelando nas páginas seguintes como uma fotografia analógica. Num exemplo de maturidade literária, Cristina escreve na justa medida de quem conhece a própria força. Descreve sonhos, mergulha na essência dos personagens e constrói frases de um realismo evanescente, olhando ironicamente para o abismo antes de voltar à realidade palpável. "E daí até arrumar as melhores palavras para, nelas, fazer caber tudo o que existe, o esforço necessário antes de se chegar ao extrato das coisas - o que chamam literatura."

O que você acha de panteísmo?
Nossa, que difícil. Você diz em que sentido?

A crença em Deus como representação do universo e das forças da natureza. Ou do politeísmo, que é a crença em diversos deuses, o que você acha?
Eu acho ótimo. Você pega a cultura hindu, por exemplo, que é muito forte. A nossa africana também. Acho maravilhoso, porque é a diversidade da natureza expressa em deidades, em figuras, não é uma coisa única, com uma cara só. A pessoa que está conectada com esse politeísmo tem uma visão mais real do que é a vida e a natureza.

E de uma deusa mulher?
Isso é incrível em termos de simbologia e de significado para as mulheres. Eu acho incrível que existam essas deidades. Deusas. Eu gosto muito, eu tenho uma afinidade muito grande, embora eu não me considere, hoje, uma pessoa religiosa.

O escritor está em missão sagrada, profana ou é antes um profissional que depende daquilo para sobreviver - o que Balzac chamava de 'operário das letras'?
Não dá pra unir tudo: profano, divino e operário das letras? Eu acho que une tudo isso. Mas eu não entendo a escrita como um trabalho que alguém me pagou, falando: 'olha, agora você está sendo uma operária das letras' - no sentido de executar um serviço a mando de outrem. Aí não. É uma coisa muito individual e muito libertária. Até me tira dessa cadeia de ser operária, de estar dentro de um sistema e executar ordens ou movimentos repetitivos. Até pode ser um movimento repetitivo, mas pra mim mesmo e porque quero, não porque estou sendo operária para os outros. 

A Bíblia é o livro primordial, ou um dos livros primordiais?
(Você está puxando para o lado religioso - por quê? Justo comigo.) Deve ser pra muita gente, mas para mim não.

Onde se baseia toda a literatura, quero dizer.
Acho que não tenho condições de analisar com esse nível de profundidade a literatura que remete à Bíblia. Não sei, algumas pessoas devem acreditar e ter embasamento pra isso. Eu não tenho - porque eu tenho um conhecimento muito limitado da Bíblia, então não posso fazer esse tipo de afirmação. Eu digo que no meu caso, especificamente, não.

O pensamento pagão é muito presente no Oito do sete.
O que te levou a achar isso? Que o livro é pagão?

Tem uma passagem com receita de feitiço, por exemplo.
Tem a passagem da benzedeira.

Eu achei que você tivesse referências pagãs.
Eu tenho. Tenho por interesse pessoal, por pesquisas e vivências que já fiz, porque me aproximei de grupos. Não pratico, hoje, mas já tive muito interesse. E foi um momento importante pra mim, eu aprendi muita coisa. Mas acho que no livro... é interessante você falar disso porque geralmente o pessoal me procura pra falar do relacionamento dos personagens. A questão da fé é muito presente no livro, como um dos questionamentos maiores. E que bom que você percebeu, não ficou só na questão de 'ah, eles fazem sexo...' - aquilo é uma passagem, e nem é a mais importante. É uma reflexão sobre essa questão mesmo, religiosidade e fé.



Na sua descrição de Roma, você diz que a origem da cidade remete às pitonisas, que são bruxas mitológicas.
Eu fui a Roma e procurei resquícios pagãos na cidade. Acho ótimo que você tenha reparado nas pitonisas. Teve um dia que eu fui para o Panteão [templo romano usado pelos antigos antes de virar igreja católica] e fiquei olhando para aquela abóboda, me perguntando o que havia antes do cristianismo, o que ainda havia ali de pagão. Mas eu não achei quase nada, saí muito frustrada. Foi tudo suplantado, totalmente, pela Igreja.

Você é ateia?
Não. Eu não sei explicar. Durante a produção do livro, eu tive vários sinais. Eu sou uma pessoa supersticiosa. Engraçado isso, não é? Eu não tenho uma fé especifica, uma religião, eu nego muitas coisas, mas sou uma pessoa extremamente supersticiosa. Eu vejo sinais, eu leio as coisas como sinais. Um dia cismei que Roma deveria entrar no livro, aí logo depois tive um encontro de poesia e o primeiro poema era sobre Roma. Foi um sinal. Depois aconteceram vários fatos em sequência que interpretei como sinais. Tora hora aparecia Roma na minha frente. Eu pensei: 'gente, não é possível'. É igual aquele lance do 11h11, sabe? Você começa a ver os números, mas não é que eles resolveram aparecer, é você que...

...está disposto a enxergá-los. Sim. 
Mas eu entrei nessa pira, vamos dizer assim, e isso me fez bem. Eu pensei: é pra ser Roma mesmo. Me baseei nisso para compor o Serafim, e fui pesquisar algumas pinturas. É uma figura que está no topo da hierarquia angelical, mas existem poucas representações suas. Eu comecei a pesquisar como ele foi representado no decorrer dos séculos, mas é super raro achar quadros dele. Escrevi para o Vaticano, mas ninguém me respondeu. Em Londres, eu fui à National Gallery e encontrei uma imagem. Nossa, aquilo foi demais. Na minha frente, aquele quadro gigante do Serafim. Eu fiquei exultante, o segurança do museu não entendeu nada.

"Ter seis asas é estar nu", diz o Serafim. Ele parece um daqueles anjos do Wim Wenders, que também são figuras da cristandade. A sua obra faz, afinal, concessões à cruz e à espada, ou pelo menos à base teológica do cristianismo.
Com certeza. Cito e respeito.  Eu não nego completamente, está na obra e eu estou fazendo uso de um personagem que faz parte de toda essa cosmogonia. Eu criei o Serafim de um modo que ele pudesse ser real, eu deixei ele mais próximo de nós. Em muitos momentos, em várias passagens, ele está próximo daquelas mulheres e continua sagrado. Em alguns momentos ele interfere e transmite o fogo necessário para determinados momentos. Independente de ser um fogo sexual ou o fogo do mais alto nível intelectual, pra ele não existe diferença. Pra ele é tudo igual. Ele tem a capacidade de transitar por todos esses céus que podem ser vistos como camadas ou etapas, e ele interfere com seu fogo. Ele está sendo divino do mesmo jeito. Não existe essa coisa de: 'ah, ali ele não podia ter ido'. Ele podia, e pra ele está tudo normal. Ele está exercendo a natureza dele na sua completude.

[GRIFO - p.144, Oito do sete - Serafim:] "Como disse, tenho a capacidade múltipla de nascer. E de subir e descer por aí, vagueando, o que se denomina vulgarmente como: voar. Não é bem o voar dos pássaros, que planam e, prioritariamente, só seguem em frente ou traçam círculos e zigue-zagues ou rasantes. Para mim é outro lance, na já referida leveza, mas em uma dinâmica diferente. Não estou sujeito a temperaturas, pressões atmosféricas ou vento, o que para pássaros e aviões é fator determinante e pode ser aniquilador. Para ficar mais fácil de entender, eu posso voar em todas as direções e também recuar, sem ter que obedecer a uma ordem exata e linear. É um voar subversivo, que não obedece a regras. Mais para nuvem de chuva e vapor do que para projétil. Obedeço a leis que desconheço ou que são inexistentes. Quando me questiono sobre essas coisas devo ficar com cara de distraído, o que o povo interpreta como arrogância. Basta analisar os retratos que de mim fizeram até hoje para ter certeza do que estou falando. Sorte que isso não me incomoda, não tenho fígado."

Glória, Magda, Serafim e Roma. São quatro lados de uma mesma alma ou pura criação fictícia? É possível dissociar a obra do autor?
A primeira parte: não, são diferentes faces relacionadas entre si. E são papeis que se entrecruzam. Até a cidade, que serve de pano de fundo para um capítulo, também é meio pessoa, tem alma, assim como os outros três. Estão todos relacionados e cada um apresenta a sua leitura, a sua vivência de cada situação. Tem um âmago comum, mas os personagens se expressam de forma diferente. São várias faces relacionadas a uma realidade única.



Você acha que conseguiu se dissociar completamente da obra, quer dizer, contar uma história sem fazer parte dela?
Não. Acho meio impossível e desconfio do escritor que diz não haver nada seu na obra. A história passou pelo meu interior, pelas minhas entranhas, pelo meu pensamento, pelo meu sentimento, até ser expresso pelas minhas palavras. É difícil dizer que não há relação, que é algo totalmente externo. Lógico que tem muita coisa minha ali, muitas reflexões sobre várias coisas. E, num momento como esse, o papel de quem escreve é conectar-se. Há coisas necessárias, que precisam ser refletidas. Que a cultura traga isso. Que a arte e a literatura tragam isso. Eu não consigo produzir algo totalmente à parte do que acontece no mundo.

Negar-se a seguir o ethos contemporâneo e se entregar à própria sensibilidade, o que me parece ser premissa de qualquer artista, não é algo como perder o medo da morte - ainda que a nível simbólico, de escancarar a própria imagem?
Você quer que eu responda isso sem beber nada? Ai, não sei nem por onde começar. Acho que tem isso, sim, uma coisa meio de tacar o 'foda-se' e não se preocupar como aquilo vai ser recebido. E, claro, até pensando na questão de vida mesmo, e na questão literária, estou correndo o risco de ser vista das mais diferentes formas, o que pode me prejudicar ou não. Mas aí é que está, se você age de outra forma, no extremo da cautela, eu não sei até que ponto isso é garantia de que você também não vai ser... Você ainda pode terminar sendo visto de uma maneira que você não gostaria ser visto, e você ainda não fez aquilo que você queria. Quer dizer, frustrado. Então, pelo menos, eu fiz, eu falei tudo ou quase tudo o que eu gostaria. Agora, se eu vou ser interpretada de uma forma que eu não esperava, isso faz parte do jogo. Não dá pra esperar unanimidade ou aceitação o tempo todo.

A escrita é um ofício penoso?
Não. Não é penoso, envolve muito prazer e realização. Não é um sofrimento, não é um fardo. Pelo contrário, é uma das poucas coisas que trazem significado, sentido. Até brinquei uma vez: 'a literatura é a maneira que encontrei para dar algum significado à minha esquisitice'. Lógico que há momentos complicados, se a gente falar de uma parte mais técnica, um trecho difícil de resolver, isso é normal, como com qualquer escritor. É claro que tenho esse tipo de problema, mas não é um sofrimento, como tem gente que proclama que é um grande martírio. Pra mim é bastante prazeroso. 



No seu primeiro livro de contos (Roteiros para uma vida curta), parece haver um esboço do estilo intrincado que você aprimora no romance, onde sua proposta estética está mais consistente e bem acabada. Como você vem trabalhando esse processo criativo? 
Roteiros é um livro que me preparou muito para o que vinha depois. Eu o considero um trabalho bem experimental, ali tem vários formatos que eu quis usar, e isso me ajudou muito. Reflete diferentes momentos e diferentes processos de produção. Agora, para o Oito do sete, acho que fiz um trabalho como muito escritor faz, tentar achar uma linguagem que ficasse própria do trabalho, mas com suas diferenças de acordo com cada parte. A voz do Serafim é diferente das de Magda e Glória. Eu fico feliz de saber que dá pra perceber essa singularidade, é legal a gente saber que existe uma linguagem em forma de expressão que tem a minha cara. Não quer dizer que pro resto da vida eu vou escrever dessa forma, estou escrevendo um novo livro em que vou por outro caminho, vou sentindo outras coisas.  

Mas no romance estão presentes técnicas que você exercitou no outro livro.
Não sei dizer. Acho que foi mais intuitivo. Eu não pensei 'agora vou usar a técnica X, agora a Y'. Isso comigo não rola. Vejo escritores que usam até planilhas, direcionamentos, uma série de recursos que eu, particularmente, não conseguiria usar. Não é que fecho o olho e sai. Eu sei o que vou fazer em cada parte, tenho um planejamento. Mas não é tão técnico naquele sentido de seguir à risca um determinado recurso. Isso não. Não penso muito nisso, não. Depois eu vou burilando pra chegar naquilo que eu quero. Eu tenho uma ideia clara do que quero, mas não é tão mecânico. Não sei se chega a ser totalmente intuitivo. É um meio termo.

Eu tenho uma última pergunta.
Já?!

Uma brincadeira, na verdade. Eu cito nomes de autoras e você me passa a sua impressão sobre elas.
[Ela topa, rindo.]
Jane Austen
Ainda não tive curiosidade de ler.

Virginia Woolf
Mestra total. Adoro. Venero. Ela foi pioneira em vários aspectos, quebrou barreiras, foi inovadora, ousada. Cada vez que leio Virginia Wolf, me apaixono mais pelo que ela é capaz de fazer. Acho ela genial, é a escritora que eu mais gosto.   

Simone de Beauvoir
Referência total que pauta a literatura e a vida. Quer dizer, ela pode e está presente nos livros e fora deles. A força dela vem disso. Não é influenciar o pensamento, é muito mais, é uma questão de transformar mesmo o pensamento de quem a lê.

Clarice Lispector
O que dizer dela além do que já se fala? Eu não acho que ela foi subestimada, mas que cada vez mais as pessoas vão descobrir a genialidade dessa mulher como escritora.



Hilda Hirst
Impressionante. É um trabalho fundamental da nossa literatura, algo muito representativo. É um tipo de literatura que pra mim fala muito, me toca muito. Hilda Hirst, mais do que Clarice Lispector.

Cecília Meirelles
Nunca li nada dela.

Svetlana Aleksievitch
Também ainda não.

Scholastique Mukasonga
Estou com o livro em casa. Não conseguir ler ainda.

Qual livro você está lendo agora?
Alguns. Eu leio, paro no meio, abro outro. É um processo meio angustiante pra falar a verdade. [Um riso seco e agudo.] Eu estou no meio de um livro de contos da Virginia Woolf, que é uma coisa sensacional lançado pela Cosac Naif. Eu comecei a ler um do Roberto Menezes, que lançou um dia desses em São Paulo pela Patuá, Palavras que devoram lágrimas. Eu comecei a ler um do Jorge Filholini, Somos mais limpos pela manhã. Que mais? Estou no meio de um do Beckett, aquele preto e branco. Eu leio muito devagar, meu ritmo é muito lento. Às vezes as pessoas dizem que leram cinco livros em um mês. Para. Se você gostou, não é possível. Quando eu gosto muito do livro, eu sou capaz de ler uma mesma frase 50 vezes, eu volto e eu volto e eu volto, porque não quero perder o sentimento que aquela frase trouxe em mim. Então eu leio muito devagar, num ritmo totalmente diferente da velocidade que se espera, e da nossa realidade hoje, que é tudo muito rápido, na internet, notícia atrás de notícia. Eu levaria um século pra ler tudo o que quero. Porque é lento, eu leio muito devagar. E, se gosto do livro, mais devagar ainda.

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Cristina Judar é escritora e jornalista, autora e roteirista das HQSLina (Editora Estação Liberdade) e Vermelho, Vivo (Devir). Seu livro de contos Roteiros para uma vida curta (Editora Reformatório, 2015) recebeu Menção Honrosa no Prêmio SESC de Literatura 2014. Em 2015, durante uma residência artística com foco em literatura na Queen Mary University of London, deu origem ao projeto de prosa poética “Questions for a Live Writing” e passou a integrar o Archive of The Now, uma coleção digital de poetas contemporâneos. Contemplado pelo ProAC de Literatura 2014, Oito do sete é o seu primeiro romance.

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Perambulando entre artistas e filisteus, Bruno Cirillo, 27 é jornalista em busca histórias da contemporaneidade, sem perder de vista as referências clássicas. Colabora com as revistas Piauí e Globo Rural



terça-feira, 10 de outubro de 2017

Poéticas da migrância

Poéticas da migrância

“Poéticas da migrância no romance brasileiro contemporâneo”, pelo Prof. Dr. Leonardo Tonus, livre-docente do Departamento « Etudes Ibérique et Latino-américaines » da Université Paris-Sorbonne.

A figura literária do imigrante na cultura brasileira, a partir de uma reflexão sobre os modos de expressão dessa figura na literatura brasileira. Discussão sobre os diferentes discursos estéticos, políticos e ideológicos acerca da especificidade cultural brasileira, no centro da qual a figura literária do imigrante se interroga e é interrogada sobre a complexidade de seu ser e estar no mundo e sobre a sua capacidade de engendramento crítico face aos sistemas em que se insere. Tais questões serão estudadas a partir do universo crítico de Samuel Rawet, de Milton Hatoum, de Luiz Rufatto e de Adriana Lisboa, no que tange às configurações da exclusão, da migrância e do clandestino.

Onde: UNESP de São José do Rio Preto
Quando: de 17 a 26 de outubro de 2017
Sempre das 9h às 13h.

Apoio: programa de professor visitante da Propg-Unesp.

Demais interessados devem solicitar a matrícula conforme instruções disponíveis em:
Para mais informações favor enviar e-mail para pos@ibilce.unesp.br

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Leonardo Tonus é professor livre docente (Maître de Conférences Habilité à diriger des recherches) e Coordenador do Departamento de Estudos Lusófonos na Université Paris-Sorbonne (França). Foi  responsável pelo Programa de Intercâmbio PLI ( Programa de Licenciatura Internacional) com diversas universidades brasileiras. Membro do Conselho Editorial e do Comitê de Redação de diversas revistas internacionais, atua nas áreas de literatura brasileira contemporânea, teoria literária e literatura comparada, com pesquisas sobre imigração. Publicou vários artigos sobre autores brasileiros contemporâneos e coordenou a publicação, entre outros, dos ensaios inéditos do escritor Samuel Rawet (Samuel Rawet : ensaios reunidos, 2008), do número 41 da Revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea e a edição especial  da Revista Ibéric@l, em torno da nova cena literária no Brasil.  Condecorado pelo Ministério de Educação francês Chevalier em 2014 na ordem das « Palmas Acadêmicas », foi Curador do Salon du Livre de Paris de 2015 que teve o Brasil como país homenageado. Em 2015 foi condecorado pelo Ministério da Cultura francês Chevalier  na ordem das « Artes e das Letras ». Em 2014 e 2016 participou da Delegação Oficial brasileira no Salão do Livro de Göteburg (Suécia) e desde 2014 organiza o festival literário « Printemps Littéraire Brésilien ». Em 2016 foi curador da exposição « Oswald de Andrade : passeur anthropophage » no Centre Georges Pompidou (França). Organizou diversas antologias, dentre as quais, La littérature brésilienne contemporaine –spécial Salon du Livre de Paris 2015 ( Revista Pessoa, 2015), Olhar Paris (Editora Nós, 2016) e Escrever Berlim ( Editora Nós 2017).


domingo, 8 de outubro de 2017

Primavera Literária Brasileira em Barcelona

Primavera Literária Brasileira em Barcelona

A Casa Amèrica Catalunya acaba de disponibilizar o vídeo realizado durante o encontro da 4° edição da Primavera Literária Brasileira que aconteceu em Barcelona no mês de Abril de 2017

O encontro contou com a participação dos escritores Carlos Henrique Schröder, Marcos Peres, Mário Araújo, Claudia Nina e Susanna Busato. A medição foi realizada pelos professores Carmen Viallarino Pardo ( Universidade de Santiago de Compostela)  e Leonardo Tonus ( Université Paris-Sorbonne)

Cliquem no link abaixo para assistir ao vídeo : Printemps Littéraire Brésilien 2017

Printemps Littéraire Brésilien - 2017

Més de trenta novel·listes, escriptors de contes, dramaturgs, poetes i il·lustradors participen en la quarta edició de la Printemps Littéraire Brésilien, que té lloc en quatre ciutats europees: París, Brussel·les, Lisboa i Barcelona. Casa Amèrica Catalunya acull la sessió Producció, circulació i internacionalització de la literatura brasilera.

Aïllat de la resta de l'Amèrica Llatina per l'idioma portuguès, el Brasil ha anat construint el seu imaginari lingüístic i literari lluny dels principals mercats editorials del món. De quina manera hi ha afectat o ajudat a la producció, circulació i internacionalització de la literatura brasilera? Quines solucions s'han trobat? Quins camins busquen els autors(as), editors(as) i agents? Aquest debat investiga les migracions internes i externes, els desplaçaments reals i simbòlics i el seu ús.

Hi intervenen els escriptors brasilers Mario Araujo, Carlos Henrique Schroeder, Marcos Peres, Susanna Busato i Claudia Nina. Presentació a càrrec de Leonardo Tonus (Sorbona, París) i traducció de Carmen Villarino Pardo (Universitat de Santiago de Compostel·la).

El Printemps Littéraire Brésilien, que inclou debats, lectures, saraos literaris, llançaments de llibres i cursos d'escriptura creativa., s'inscriu en una perspectiva pedagògica i s'estén al camp de la promoció i divulgació de la literatura brasilera.

Al principi, des de la seva creació pel professor Leonardo Tonus (Université Paris-Sorbonne), estava pensat com una trobada anual europea destinada a promocionar i ampliar la formació d'estudiants de lletres inscrits en els cursos de portuguès de diverses institucions europees, però, a dia d'avui, l'esdeveniment s'ha consolidat com un important espai de discussió literària que potencia lectures i enriquidores experiències al voltant de la llengua portuguesa.

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Printemps Littéraire Brésilien

Más de treinta novelistas, escritores de cuentos, dramaturgos, poetas e ilustradores participan en la 4ª edición de Printemps Littéraire Brésilien, que tiene lugar en cuatro ciudades europeas: París, Bruselas, Lisboa y Barcelona. Casa Amèrica Catalunya acoge la sesión Producción, circulación e internacionalización de la literatura brasileña.

Aislado del resto de América Latina por el idioma portugués, Brasil ha ido construyendo su imaginario lingüístico y literario lejos de los principales mercados editoriales del mundo. ¿De qué manera ha afectado o ayudado eso a la producción, circulación e internacionalización de la literatura brasileña? ¿Qué soluciones se han encontrado? ¿Qué caminos buscan los autores(as), editores(as) y agentes? Este debate investiga las migraciones internas y externas, los desplazamientos reales y simbólicos y el uso de los mismos.

Intervienen los escritores brasileños Mario Araujo, Carlos Henrique Schroeder, Marcos Peres, Susanna Busato y Claudia Nina. Presentación a cargo de Leonardo Tonus (Sorbona, París) y traducción de Carmen Villarino Pardo (Universidad de Santiago de Compostela).

El Printemps Littéraire Brésilien, que incluye debates, lecturas, saraos literarios, lanzamientos de libros y cursos de escritura creativa, se inscribe en una perspectiva pedagógica y se extiende al campo de la promoción y divulgación de la literatura brasileña.


En un principio, desde su creación por el profesor Leonardo Tonus (Université Paris-Sorbonne), estaba pensado como un encuentro anual europeo destinado a promocionar y ampliar la formación de estudiantes de letras inscritos en los cursos de portugués de diversas instituciones europeas, pero, a día de hoy, el evento se ha consolidado como un importante espacio de discusión literaria que potencia lecturas y enriquecedoras experiencias alrededor de la lengua portuguesa.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

L'attente/ En attente - Symposium International

a espera/ à espera:
figurações do contemporâneo

l’attente/en attente:
figurations du contemporain

Simpósio Internacional
UNIVERSITÉ PARIS-SORBONNE/ PUCRS
(06/outubro e 07/outubro de 2017)

Local: UNIVERSITÉ PARIS-SORBONNE

(Organização Prof. Dr. Leonardo Tonus/ Prof. Dr. Ricardo Barberena)


SEXTA-FEIRA 6 DE OUTUBRO

14h00 - Abertura do Simpósio em presença dos organizadores Leonardo Tonus ( Université Paris-Sorbonne) e Ricardo Barberena ( PUCRS)

Experiências da espera por Adelaide Ivánova

MESA 1 – Refugiados à espera
14h30-15h45
Mediação : Renata Azevedo Requião (UFPel)

Camila Gonzatto
A experiência da espera: uma reflexão sobre as oficinas de escrita criativa no abrigo de refugiados Tempelhof (Berlim, Alemanha)

Ricardo Barberena (PUCRS)
Passaportes, passagens, parataxes.   

Leonardo Tonus   (Université Paris-Sorbonne)
Refugiados nos quadrinhos-reportagens franceses : a (à) espera de um texto.


MESA 2 – Poética da espera
16h00-17h15
Mediação : Vinícius Carneiro( Lille 3)

Experiências da espera por Cristiano Baldi  (PUCRS)
O romance como poética da espera

Lívia Bertges  (UFMT/ Université Paris-Sorbonne)
Das fronteiras poéticas em Arnaldo Antunes

Fernando Floriani Petry  (Université Lyon 2)
Latão lotado luto, a poesia de Demétrio Panarotto


MESA 3: Por uma ética da espera
17h30-18h00
Mediação : Liniane Haag Brum ( UNICAMP)

Experiências da espera por Reginaldo Pujol Filho (PUCRS)
Ideias que podem aparecer na cabeça de um sujeito sentado em uma cadeira

Regina Dalcastagné (UnB)
Até quando? Sobre a necessidade de imaginar outras narrativas



SABADO 7 DE OUTUBRO

MESA 4: EsperaDores
9h30-10h45
Mediação : Lívia Bertges  ( UFMT/Université Paris-Sorbonne)

Experiências da espera por Simone Paulino
Quanto ao futuro: Clarice Lispector, uma escrita à espera do depois

Karyn de Paula Mota (PUC-RJ)
Clarice Lispector na Era Digital: a apropriação no processo criativo e o caminho obsessivo na produção de micronarrativas sem lastro

Vinícius Pereira  (UFMT )
De "chapa e cruz" a "paus-rodados": ciclos migratórios para Cuiabá na poesia de Silva Freire
Vinícius Carneiro ( Lille 3)
Literatura no estômago e sem estômago num Brasil desesperado


MESA 5 : 11h00-12h15
Mediação : Maria-Clara Machado (Université de la Sorbonne-Nouvelle/ Paris3)

Jorge Alves Santana  (UFG)
Mobilidades socioestéticas transversais de Hilda Hilst e de Caio Fernando Abreu no campo literário brasileiro contemporâneo

Rafael Souza Barbosa (École des Hautes Études en Sciences Sociales/EHESS)
Figurações do consumo em vida:  transfigurações II, de bénédicte houart

Experiências da espera por Arthur Telló (PUCRS)
Um díptico da espera

MESA 6 : Transitar pela espera
14h00– 15h00
Mediação : Leonardo Tonus

Raquel Peixoto do Amaral Camargo (USP/ Université Paris-Sorbonne)
A escrita de fronteira de Jean-Marie Blas de Roblès: notas sobre o romance Dans l’épaisseur de la chair (2017)

Renata Azevedo Requião (UFPel)
 s.o.s. distress: narrativas de homens sós

Experiências da espera por Sonia Bischain
Travessia


MESA 6  : Figurações da espera
15h15-16h50
Mediação : Ricardo Barberena ( PUCRS)

Experiências da espera por Israel Valente
Brasil e África até onde a vista alcança

Osnildo Adão Wan-Dall Junior (UFBA/ École Nationale Supérieure d'Architecture de Paris La Villette)
Os mistérios da Bahia em Os pastores da noite: espaços-tempos fronteiriços e liminares


MESA 7: Espera enlutada
16h00-17h00
Mediação : Vinícius Pereira (UFMT) 

Avulsão: a fuga como espera contemporânea

Liniane Haag Brum (UNICAMP)
O desaparecido e a literatura pós-ditatorial brasileira: é tudo (an)arquivo?

Natasha Centenaro (PUCRS)
Pai e filhos nesse espelho jamais inteiro: relações de trauma e violência em Reunião de família, de Lya Luft


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En raison de l’Etat d’urgence et du plan Vigipirate, merci de confirmer votre présence par email à l'adresse suivante : leotonusbr@hotmail.com









terça-feira, 26 de setembro de 2017

Menina, mulher e pássaro

Menina, mulher e pássaro
por Bruno Cirillo

Com estilo próprio marcado pelo formalismo, Aline Bei alça o primeiro voo na literatura com o romance O peso do pássaro morto

Aline Bei reflete sobre o vazio e as perdas - no limite, a gratuidade da vida - no seu romance de estreia, O peso do pássaro morto, lançado neste mês pelas editoras Nós e Edith. A morte e o abandono dão o tom da narrativa desde o início, quando a protagonista descobre, ainda criança, que sua melhor amiga morreu. Anos depois, seu primeiro namorado a estupra. Do estupro nasce Lucas, com quem a personagem mantém uma relação difícil nas décadas seguintes. Dividido em idades marcantes, o livro percorre a vida da personagem dos oito aos 52 anos. As decisões da autora para a forma do texto são corajosas, "desenhando" na página frases quebradas, prosopopeias e elementos do realismo fantástico, em meio a reflexões sobre a solidão. Formada em Letras pela PUC-SP e atriz da Escola Célia Helena, Aline criou um universo particular em que dá rasantes sobre questões existenciais.

Em O peso do pássaro morto, você conseguiu criar um universo hermético, um mundo fechado em si - e aí está a alma de um livro. Por que não deu nome à personagem? Quem é essa "menina sem lágrimas no meio do caminho, uma mulher"?
Eu não coloquei nome porque ela é um fluxo de consciência, e eu queria mergulhar nesse fluxo de consciência. Pode ser qualquer pessoa, ela não precisa de um nome porque está fechada no seu próprio fluxo. Então decidi não pôr nome nenhum, até porque acho que ia destoar totalmente da minha proposta. Quando ela não tem nome, ela é todo mundo e não é ninguém - eu gosto desse lugar. Eu queria deixá-la em lugar nenhum, num fluxo interno, nessa viagem. Se colocasse um nome, ela já teria ficado do mundo, da rua, e eu queria ela de dentro. Por isso escolhi não colocar.

A tendência é acharem que é você. Depois que li o livro, voltei atrás para ver se algum personagem chamava pelo seu nome.
É porque está em primeira pessoa. Mas se você for olhar meus dados biográficos, não há nenhum encontro com a vida da personagem. É muito comum, quando o livro está em primeira pessoa, acharem que o personagem é o escritor, ainda mais se você o conhece, se você tem a imagem dele. Não tem nada, foi proposital mesmo. Mas é natural, a gente vê primeira pessoa e acha que o autor está falando de si mesmo. Nem sempre. Ele pode estar falando de si mesmo em terceira pessoa, em primeira, ele pode estar sempre falando de si mesmo, de algum jeito, mesmo que não sejam dados biográficos. É seu material, não tem como fugir muito da sua própria visão de mundo, que é o elemento principal.

Sim, uma saída é colocar tantos elementos pessoais quanto fictícios, assim tudo se mistura e ninguém pode discernir o que é seu e o que não é.
Sim, mas o duro é que - eu até já li isso em algum lugar - quando você coloca muito da sua visão de mundo, talvez uma pessoa que te leu e nunca te viu te conheça melhor do que alguém que nunca te leu e só conversa contigo. Isso porque ali na escrita não tem como você negar a sua essência, e não estou falando da história, mas de alguma coisa no fundo disso. Eu sempre me sinto muito íntima do autor quando ele me toca. Eu acho que esse é o lugar, o da visão de mundo mesmo, não é biográfico. Quando você começa a olhar um quadro e começa a se sentir muito íntimo da tela, você se conecta com ela. Esse é o grande barato.

© Hans Jörg Michel

Qual é o papel da mulher na literatura hoje?
Eu acho que sempre tiveram mulheres escrevendo muito bem. O problema é que o mundo é dos homens, então a gente está sempre pedindo permissão pra entrar. Hoje, como as coisas estão caminhando pra algum tipo de evolução, as mulheres aparecem mais, porque as pessoas estão se abrindo um pouco mais pra isso. Mas o mundo continua sendo dos homens. A gente tem que chegar num lugar em que as pessoas escrevem livremente sobre o que for.

O seu livro não é engajado, não tem uma causa social, ele está muito mais ligado a questões do espírito. Você acredita na literatura como arte interessada ou desinteressada, no sentido de engajamento?
Meu livro tem a questão social do estupro, da mulher como objeto, da mulher sofrer tanto abuso e opressão e calar por medo. O estupro é a única violência que a vítima precisa provar quando sofre. Como ela prova? É só a palavra dela - tem uma questão social nesse sentido. Mas esse foi um caminho natural, por eu ser mulher e pensar nessas coisas que a gente sofre, de andar na rua, de ter medo, muito mais medo do que os homens. É um pouco isso. Mas não é um livro político. Acho que sempre que uma coisa é pensada, intelectualmente, ela vai ter uma função. Mas se você ficar pensando demais na função social de um livro, talvez acabe produzindo uma coisa panfletária demais. A minha relação com a escrita é mais fluida, mas acho que a literatura tem o seu papel de questionar, refletir, de levar o mundo pra frente. Como toda arte, tem o papel de revolucionar, mas não pode ser só isso. Tem o prazer estético, o fazer artístico, que não é só de cunho social, pois senão seria como política. São várias coisas juntas. Você pode ler um livro e isso te transformar por dentro de uma maneira que você se torne um ser humano melhor. Ler faz as pessoas evoluir, isso é um papel social e político, isso faz as pessoas pensarem mais sobre as próprias atitudes e a atitude do outro.

Na visão de um crítico, haveria dois pontos passíveis de serem atacados no livro. A forma do texto, com versos livres, e também a sua estrutura, dividida pelas idades da personagem. Alguém poderia dizer que a personagem se mantém homogênea em todas as idades, sem o devido amadurecimento. Como foram esses processos de construção?
A forma do texto não é de versos. Considero que são frases, eu quebro frases, não faço versos. Trabalho com o ritmo da personagem, a respiração dela, a entonação. E as idades, eu pensei que elas deviam ficar como a coisa mais natural possível, considerando que a gente muda com o tempo. Eu queria que a linguagem estivesse conectada com a essência da personagem, porque eu acredito que a nossa essência é a mesma a vida interia, a gente cresce e amadurece com o tempo - e a voz dela vai amadurecendo, porque a voz dela é como o corpo dela no livro -, mas ela continua sendo a mesma pessoa. Em nenhum momento eu queria que houvesse dúvida de que é ela. Ela continua sendo ela, mas reagindo a tudo o que acontece, envelhecendo, amadurecendo, guardando as coisas. Há uma transformação. Isso é muito delicado, então refleti bastante sobre isso, pra que não destoasse - olhar pra ela com 52 anos e pra ela com 8 anos e dizerem que não é a mesma mulher. É a mesma mulher. É como você olhar para uma pessoa que não vê há 20 anos e dizer: como está diferente, mas ainda é a mesma.

 
Mira Schendel

Você fala da quebra de frases como pausas na respiração da personagem, como uma gênese de personagem teatral. Qual é o peso da atriz na escritora?
Eu não deixo minha carreira de atriz de lado, ela fica comigo. Então, isso acaba dando uma carga teatral nas coisas que eu faço. Quando você lê uma peça, o texto está chapado nas linhas, mas o ator não lê aquilo neutramente, ele dá intenção, ele dá a dança da página. É isso que eu busco quando escrevo "desenhando", como se fosse um ator lendo ou atuando no palco. E também tenho uma preocupação com a página em si, pra que ela não seja esquecida. A página não é só um suporte, ela está ali, aquele branco, sabe, aquela folha existe, não posso esquecer do livro, o livro como um palco dessas palavras, as palavras como corpo e voz do ator. Eu levo tudo isso em consideração. É um jeito que encontrei de valorizar algumas coisas - as maiúsculas no meio das frases, por exemplo. É uma questão de respiração e ritmo.

Quem é o cão Vento? Me parece o encontro da personagem com um lado cigano.
Ele é um ser mágico, até porque quando ele entra em cena, a vida dela ganha um respiro, ele está ligado a um lado místico. Ele é o vento, algo grande que não é visto. Quando ela consegue se soltar um pouco, ela encontra esse cachorro. Tenho uma admiração muito grande por cachorros. Gosto da minha relação com os meus, mas também do bicho em si. Eu fico curiosa ao observar um cachorro. Olha o poder deles, as coisas que eles ensinam pra gente sem exigir nada em troca. Eu tenho uma relação mística com cachorros, fico muito curiosa pra entender que ser é esse. Todo mundo que leu o livro e fala comigo comenta do Vento.

Me marcou porque no fim de um capítulo ele já é velho e no início do próximo, quando já se passaram dez anos, ele ainda está vivo. Não é um ser possível - até então, tudo o que você conta é plausível, essa é a única coisa que não é. Metafísica.   
E a casa também.

Sim, a casa. Você leu Cem Anos de Solidão?
Sim, lógico. Mas essa casa não peguei emprestado do Garcia Marquez, não. Talvez intuitivamente, mas tem uma casa que existe, que visitei, que é a casa de um amigo meu, ele não mora mais lá, mas era uma casa muito mágica, e eu estava escrevendo o livro quando a visitei pela primeira vez. Eu tenho uma coisa no livro que é personificar objetos: a casa tinha que ser um personagem.

Por força da vontade, ela seria eterna.
Sim, ela existe, ela está, ela resiste. Como a gente vê algumas casas que estão caindo aos pedaços mas continuam em pé. Como a casa da minha avó. É um mistério tentar entender esses lugares, então eu quis colocar a casa como um personagem, não como uma coisa. O livro é esse lugar de criar livremente. 

O sexo, no seu livro, é uma coisa brutal, e só aparece uma vez.
Não é sexo. É um estupro. Não tem sexo no meu livro.
[Um silêncio.]

Você é otimista?
Muito, bastante.

Você acredita em felicidade?
Muito, mas não o que as pessoas vendem, uma coisa utópica, uma coisa linear, mas acredito num estado de abertura pra vida. Seguir presente, seguir tentando, isso tudo pra mim tem a ver com a felicidade, mas ela não é linear.

Por que você escreve?
Eu escrevo, é muito natural.

Edward Hopper, Nighthawks, 1942

Você se sente solitária?
Muito. Bastante.

Eu cheguei aqui, havia outra pessoa. Você parece ter bastante gente por perto.
Isso não tem nada a ver com a solidão.

Em que sentido você se sente solitária ?
Acho que tem uma coisa em todos nós, nos sentirmos assim. A vida acaba, a gente sabe que está aqui sem saber o que vai acontecer em seguida. Há uma melancolia em estar vivo na incompreensão. Existe um lugar que é só seu, só você acessa. Pra gente que trabalha com arte, é importante esse lugar. Pro escritor, é essencial. Eu preciso estar sozinha nesse lugar que só eu acesso. A solidão é uma coisa da vida. A gente vai morrer sozinho, ninguém morre com a gente.

Escrever não é uma maneira de lidar com a solidão?
Com certeza, de preencher vazios. Escrever para mim é realmente muito natural, nem sempre é bom, nem sempre é um processo gostoso, mas é uma coisa que eu não viveria sem. Nada se iguala.

Então é o primeiro de muitos livros?
Com certeza.

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Aline Bei nasceu em São Paulo, em 1987. É formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e em Artes Cênicas pelo Teatro Escola Célia-Helena. É editora e colunista do site cultural OitavaArte. O peso do pássaro morto é o seu primeiro livro.

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Perambulando entre artistas e filisteus, Bruno Cirillo, 27 é jornalista em busca histórias da contemporaneidade, sem perder de vista as referências clássicas. Colabora com as revistas Piauí e Globo Rural